Nenhum de nós nasce com uma imagem de si próprio inteiramente formada. Uma criança vai aperfeiçoando esta imagem consoante as experiências pelas quais vai passando na vida, começando pelas suas interações com os seus pais/cuidadores, irmãos e mais tarde os professores e amigos bem como com outros significativos ao longo de toda a sua vida.

À medida que uma criança vai crescendo e desenvolvendo a sua personalidade, é importante ter em conta os valores e crenças que esta vai adquirindo e é fulcral que a criança se sinta estimulada e valorizada quando realiza tarefas que têm um especial valor para as pessoas que mais ama. A forma como é explicado à criança se a tarefa que realizou está bem ou não, é de relevante importância para que a sua autoestima se eleve desenvolvendo desta forma, emoções adequadas à sua faixa etária, caso esta situação não se verifique, a criança pode desenvolver uma baixa autoestima, prejudicando assim o seu bom desenvolvimento emotivo.

Alguns autores defendem que a autoestima se relaciona com um juízo de valor pessoal, manifestado através das atitudes do indivíduo consigo próprio, referindo ainda que é uma experiência subjetiva, uma vez que os indivíduos têm acesso às suas experiências de acordo com relatos verbais e comportamentos observáveis. Outros autores, referem que a perceção das pessoas relativamente ao seu valor e a apreciação de si próprios, de acordo com as suas competências, constituem ferramentas fundamentais da autoestima, sendo o julgamento pessoal formado desde a infância. Depois da infância, cada individuo constrói, ao longo da sua vida, expetativas acerca de si próprio que vai alterando consideravelmente à medida vai passando pelas experiências que a vida lhe proporciona. Este dado é comprovado por vários estudos realizados, que indicam que o autoretrato muda ao longo de toda a vida.

A autoestima pode ser avaliada, segundo alguns autores, como a diferença entre o real e o ideal. O real baseia-se na informação objetiva que o mesmo percebe sobre si, isto é, o autoconceito. O ideal é a imagem do tipo de pessoa que o indivíduo deseja ser. Quando a autoestima está elevada, o real e o ideal estão de acordo, no entanto, quando está baixa, o real e o ideal estão desajustados. Por outro lado, podemos ver a autoestima como o valor positivo ou negativo que cada pessoa coloca nas suas próprias qualidades, o que é determinado pela valorização das suas atividades por parte dos pais ou pares. Assim, a autoestima não se desenvolve pelas experiências de fracasso ou êxito de uma criança, mas sim pelo valor que é atribuído às atividades nas quais estas têm sucesso ou insucesso, e também pelo feedback que cada uma apreende dos indivíduos que são mais importantes na sua vida, nomeadamente os

pais e, na adolescência, os pares. É importante sublinhar ainda que a autoestima tende a ser mais estável durante a infância, tendendo a uma maior instabilidade na primeira adolescência, o que significa que a autoestima possui um carácter dinâmico, informação de grande valor para pais e educadores: nunca é tarde para valorizar as atividades de um indivíduo, aumentando a sua autoestima.

Além do carácter dinâmico da autoestima, a sua flutuação consoante os diferentes papéis que o indivíduo desempenha. A autoestima é a forma positiva como cada indivíduo se reconhece a si próprio na sua totalidade, mas também em cada uma das áreas da sua vida: um sujeito pode ter uma elevada autoestima no desempenho das suas funções laborais, mas devido aos fatores externos, sentir-se frustrado no exercício da sua parentalidade.

A autoestima pode focar-se, também, na consciência do valor pessoal em diferentes áreas, sendo como a união de comportamentos e convicções que fazem com que cada indivíduo tenha a capacidade de enfrentar a realidade que o mundo lhe apresenta. A autoestima é gerada por sentimentos que acompanham os indivíduos desde crianças, determinando a forma como estes desenvolvem ou não capacidades que fazem com que estejam mais treinados para as dificuldades que a vida e a sociedade lhes oferecem. Podem distinguir-se quatro componentes da autoestima, sendo estas:

1. Sentimento de segurança e de confiança;

2. Autoconhecimento;

3. Sentimento de pertença a um grupo;

4. Sentimento de competência.

O sentimento de segurança e confiança tem como fatores principais dar resposta às necessidades básicas de desenvolvimento das crianças e transmissão de valores, sendo que estes já foram vividos e experienciados pelos pais.

Quando os adultos dão resposta às necessidades das suas crianças e consequentemente estas se sentem amadas, faz com que os valores que lhes são facultados pelos mesmos tenham mais relevância na sua vida, sendo, desta forma, a autoestima conduzida pelo amor que a criança partilha com os adultos que convive, principalmente os pais. É importante que estes assegurem as necessidades básicas de sobrevivência, amor, segurança, autonomia, vinculação, etc., caso não seja assegurado, os pais tornam-se negligentes para com os seus filhos colocando o futuro destes em risco.

A segurança é um fator de extrema importância para uma criança, uma vez que esta é um ser dependente dos seus cuidadores. A autora frisa que a segurança não é parte integrante

da autoestima, mas sim um pré-requisito, ou seja, é necessário que os pais garantam a segurança das suas crianças antes destas terem perceção de que têm valor pessoal.

A confiança advém do sentimento de segurança proporcionada pelos cuidadores. Pode relacionar-se a confiança com a relação de vinculação forte e estável que a criança vive, aquando da sua perceção torna-se num sentimento de segurança cada vez maior, dando, desta forma, origem à confiança. É importante que a criança tenha a noção clara destes sentimentos, por forma a que se desenvolva com base na tranquilidade.

O autoconhecimento, por sua vez é descrito pelo autor como um fator muito importante para o desenvolvimento da autoestima da criança, uma vez que conhecer-se bem a si mesmo é um dos pilares onde a autoestima se apoia, sendo o autoconhecimento construído de forma lenta ao longo de todo o desenvolvimento, desde a dependência até à autonomia.

O sentimento de pertença a um grupo refere-se ao facto da criança ter necessidade de criar relações, ou seja, cada indivíduo tem a capacidade de estar ligado a outras pessoas e integrar-se em grupos. É importante que as crianças sintam que são reconhecidas por aqueles que lhes estão mais próximos, nomeadamente os cuidadores, professores e amigos, como forma de confirmação da sua existência. Os grupos extra familiares, como os amigos, são de extrema importância para o bom desenvolvimento da autoestima, pois são estes que vão fornecer à criança oportunidades para criarem dinâmicas fora do seu meio familiar e que são sustentadas pela sociedade em que estão inseridas, tornando-as mais fortes para enfrentar os seus desafios.

Por último, o sentimento de competência refere-se ao futuro das crianças. É crucial que as crianças sintam que os seus cuidadores confiam em si de forma a criarem qualidades que os tornem mais resistentes para enfrentarem as experiências da vida. São os objetivos cumpridos ao longo destas experiências que se associam ao sentimento de autoestima. Quantos mais e maiores forem os êxitos que a criança consiga, maior será a autoestima sentida.

Associado à autoestima encontra-se a motivação, é importante que a criança se sinta motivada, principalmente pelos indivíduos que lhes são mais próximos para a concretização das experiências e consequentemente o sentimento de orgulho dos mesmos.

1 thought on “A autoestima

  1. Ótimo artigo.
    É importante estarmos atentos aos sentimentos das nossas crianças. Muitas vezes a corrida diária nem nos deixa pensar nisso e achamos que está sempre tudo bem!
    Obrigada Dra. Vânia pelas dicas.

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